janeiro 25, 2010

A cor da saudade.


Eu tenho uma lembrança, mas essa é especial. O nome da lanchonete era "Elizabeth", talvez, sei que tinha uma placa rosa salmão com letras pretas muito bonitas; eu adorava comer lá. Ficava esperando o meu pai chamar, sempre, às vezes íamos depois do colégio, quando eram duas da tarde mais ou menos. Isso costumava ser em Maio, porque o sol começava a esquentar, acho que meu pai não gostava de lugares fechados, ele só ia se pudesse sentar do lado de fora. Escolhíamos a mesma mesa toda vez, assim podíamos ficar debaixo do toldo branco e empoeirado; naquela época do ano eles retiravam a proteção de plástico e aparecia uma estrutura de madeira engolida por trepadeiras. Nesses dias me sentia inabalável, sei lá, coisa de filha; é que mal conseguia conter o orgulho de estar ali e o meu peito estufado já estava me transformando na Pamela Anderson. A gente só não conversava, sério, além das perguntas bestas que eu fazia, o silêncio ganhava o pódio; mas não estava ali para derrubar barreiras, apenas curtir o meu pai. Então mordia o sanduíche de gamberetti e molho rosé, realmente delicioso, claro que tinham alfaces e tomates enfiados no negócio. Tentava nem olhar para a gororoba de atum dele, era empapada e exótica demais para mim. Na verdade, aos treze anos não era tão nojenta com comida, sou mais agora; prova de que pessoas não crescem, regridem. Um dia, no restaurante ao lado, fiz alguma imitação e o meu pai riu tanto que acabou se engasgando com o macarrão, achei o máximo fazê-lo gargalhar daquele jeito. Era bom ficar lá, sabe, muito bom. Do outro lado da rua haviam os campos de tênis e dava para assistir o pessoal se estrepar, com seus uniformes charmo_
sos. Então a mão no ombro e o "vamos?", é... "vamos"; a verdade, aquilo nunca foi suficiente para mim. Haviam milhões de coisas que teria gostado de propor, mas eu não disse e o sorvete meio que "já era". É isso aí, algo de que sinto falta, almoçar com o meu pai. Momentos assim, não deveriam ser raros, é uma pena. Você pode sempre chamar o seu para sair. O que penso das relações pais e filhos ? Ah, são uma bosta, você nunca consegue dizer o que quer; mas, é a experiência mais importante da vida e exclui-la da lista seria quase vergonhoso. Desculpe-me por contar histórias aleatórias e confusas... sei, desinteressantes também, mas eu preciso escrever; é melhor do que me embutir de Valium, espero.
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Não sei escrever contos.

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**Desenho: Mamanunes Templates **Inspiração:Ipietoon's **Imagem digital: Kazuhiko Nakamura